Bem, este post reflete meus mais sinceros sentimentos sobre alguns pontos da realidade em que vivo no meu dia a dia profissional, foi publicado pelo meu amigo Antônio Sobrinho [http://antoniolviana.blogspot.com] e também no blog do Ricardo Santos [http://ricardosantoscontraponto.blogspot.com.br/2011/06/provocacoes-nao-intencionais.html]. O título não é de minha autoria, uma vez que publiquei o texto em meu perfil (extinto) do Facebook e o mesmo não possuía título.
Por: Rossini Carlos.
Ultimamente tem-se falado bastante em aumento salarial, melhores condições de trabalho dentre algumas outras coisas de certa forma importantes para o bom desempenho das tarefas diárias do dever policial militar.
Bem, eu particularmente não me sinto completamente partidário de tal idéia e explico: como posso ser eu partidário de uma idéia que beneficia igualmente um policial militar que nunca ou quase nunca tirou um serviço operacional? Como equiparar em “nível de risco” um PM que está no seu serviço administrativo de segunda a sexta e está em casa todo final de semana, feriado, enforcamento e datas de grande demanda por segurança nas ruas enquanto o restante da tropa é sacrificada em suas escalas de serviço tanto pela real falta de efetivo [um problema de gerenciamento do Estado] quanto por estar “cobrindo” uma lacuna deixada pelos que estão baixados, em férias [que algumas vezes são sacrificados pela falta de efetivo], em licença prêmio e por todos aqueles que se resumem apenas ao serviço administrativo?
Como posso concordar que um policial ganhe mérito operacional quando está lá em seu serviço de gabinete, no bom e velho ar-condicionado quando muitos estão nas ruas matando para não morrer como aconteceu com um amigo de pelotão, onde em uma ocorrência ele e o sargento tiveram que tirar a vida de um ser humano que mesmo sendo infrator era um homem? Este mesmo amigo cujo único apoio recebido foram algumas sessões no CAPS e mais que isso, de seus amigos mais próximos e familiares que fizeram o possível para que ele internalizasse o ocorrido e voltasse à sua vida normal já que ele está do “lado certo”. Afinal, qual lado é o certo numa sociedade tão hipócrita?
Não posso pactuar com a idéia de um melhor salário para um policial que possui cargo de nível médio enquanto um professor com nível superior ganha muito menos e hoje em dia corre praticamente os mesmos riscos. Costumo dizer que pela natureza da ocupação sim, o PM deve ser muito bem remunerado, pois está diariamente procurando a morte durante o desempenho de suas tarefas para o bem-estar da população sofrida do nosso país.
Apesar de ter o nome quase constantemente em escalas de guarda [que é um serviço operacional de acordo com o RISG] e de vez em quando no serviço externo [conhecido por Escala de CPM], sou um privilegiado por ter nascido com o QI acima da média das pessoas normais, acabei sendo mais um dos muitos que trabalham no administrativo da corporação. Porém, não posso ser iludido nem me deixar levar pela falsa sensação de que tudo está bem quando tudo acaba bem como dizem, acomodação é um mal que está infiltrado dentro de muitos de nós, em todas as esferas. Ano que vem terei interstício para ser Cabo, olha que coisa legal?
Obviamente não seria um hipócrita em recusar aumento de salário, afinal, quem não o quer? Sigmund Freud já dizia que o homem é movido pelos desejos, Maslow disse que quando a necessidade de auto-realização é alcançada, automaticamente é substituída por uma nova, caso deixe de existir é porque estamos mortos. Costumo dizer que modéstia é uma doença da qual não sofro, isso é bobagem, proferir ser modesto é deixar de sê-lo. Muitos me criticam por minhas falas radicais que muitas vezes são interpretadas como ignorância, mas respondam com sinceridade: alguém acha mesmo correto receber igual a um professor doutor em universidade federal quando você tem um reles diploma de ensino médio? Sua graduação não interessa assim como a minha, estou falando apenas do necessário para ascender ao cargo.
Novamente muitos irão voltar suas iras e frustrações sobre minha pessoa [ainda bem que não acredito em macumba, mal olhado e besteiras afins]. O importante como sempre comentamos na seção à qual faço parte é estar de consciência tranqüila, coisa que aliás aprendi desde cedo no seio familiar.
Concordo sim que devemos [devemos no sentido do todo, repito, o todo que está nas ruas diariamente] ter melhores condições de trabalho, afinal, passar 12h em uma VTR deve ser um verdadeiro inferno. A própria OMS recomenda que para cada 1h sentado você deve tirar de 10 a 15 minutos para relaxar, alongar de maneira a evitar trombose. Na correria e exigência do dia-a-dia quem faz isso? O horário de almoço [e que belo almoço, bem sabemos] que além de ser desregulado [sim, ele atrasa, já trabalhei no operacional do 1º BPM e bem sei] chega quase sem condições de ser ingerido [sempre frio] e se chega no meio de uma ocorrência então ninguém sabe quando será efetuado. Daí os policiais ficam mendigando aos comerciantes locais alguma merenda, água, coisas básicas [acho uma vergonha, sem contar que você recebe seu vale alimentação para COMPRAR a comida e não para beber cachaça e depois ficar implorando coisa em comércio de um cara que está lá lutando para sobreviver também sabia?], o vale é irrisório, sim, mas você só tira 1º QTU cerca de 8 vezes no mês, ou seja, são 8 almoços já que o 2º QTU considera-se que jantou antes de sair de casa.
As mulheres que tanto lutaram por direitos durante o último século deveriam se pronunciar mais sobre as tais condições, principalmente as de saneamento já que não podem simplesmente “tirar água do joelho” no primeiro poste que olharem. A cada 28 dias seu organismo as “castiga” com as famosas cólicas, TPM e as mesmas precisam de locais adequados para efetuarem sua higiene. A corporação é machista e continuará a ser, vejo constantemente as maiores interessadas em melhoria das condições físicas caladas esperando ou que as “cabeças pensantes” tomem uma atitude ou que algum homem fale por elas, digo isso porque em nenhuma das reuniões de fim de mês da minha atual unidade qualquer uma delas falou no assunto quando a palavra foi passada aos membros da unidade.
Quer dizer que estou passando a vocês mulheres a responsabilidade pelas más condições de vocês? Nem que eu quisesse, como falei, a corporação é machista e a conquista das mulheres até para ingresso na corporação é recente, na Bahia tem apenas 21 anos. Estou dizendo apenas que é uma luta que compete a todos nós, mas tem que ter como lideres vocês que sabem exatamente o que é passar 12h ininterruptas sem realizar sua higiene como se deve o que pra mim enquanto homem já é péssimo passar 6h na farda operacional que quando esquenta fede horrores, fico imaginando como não deve ser para vocês. Enquanto vai-se ficando calado, as prioridades tornam-se outras e as condições continuam as mesmas já que ninguém efetivamente reclama.
São 4 anos para se comemorar o que mesmo? Apenas as amizades como me relataram mais cedo? Amizade é interessante, mas o reconhecimento vindo apenas dos pares apesar de ser gratificante em quase nada contribui para o estímulo de melhor desempenhar as tarefas do dia-a-dia, afinal, meus amigos eu posso reunir a qualquer época ou na casa de algum, ou em minha casa ou ainda combinarmos de sair para qualquer canto. Mas, e o reconhecimento por ser um bom profissional e bem desempenhar suas tarefas em um ambiente agradável no qual realmente possamos sentir ser nossa segunda casa como muitos proferem, mas que nem em trajes civis podemos entrar?
Admiro os colegas que ariscam suas vidas todos os dias para proteger pessoas que sequer conhecem, admiro também todos aqueles que têm lutado por conquistas que beneficiarão todos igualitariamente caso conseguidas e espero sinceramente que o consigam. Porém, como disse no começo, não sou completamente partidário da idéia pelos motivos também já citados. Hoje, dia 19 de junho de 2011, acordei com vocação pra Judas, vou ali ouvir Judas Priest até dar a hora de ir trabalhar.